domingo, 18 de outubro de 2015

Se não jogou, jogue! - Jotun (PC)

Você impressionou os Deuses!




Saudações, guerreiros desocupados que pilham, matam e saqueiam, tudo em paz com vocês?

Como muitos de vocês já devem ter percebido ao olhar para o calendário da parede ou da tela do PC, hoje é Domingo. E o que temos no Domingo, além da programação chata e monótona da TV? Temos post novo aqui no Desocupado — que, a propósito, sempre é bem melhor que a programação da TV de Domingo. Tipo, beeeem melhor, sem querer se gabar. Aposto que não tem Cinema, Vídeo Games, Quadrinhos, Livros e/ou Séries na TV de Domingo. Mas aqui tem. Todo Domingo. Toma essa, televisão!

E hoje, trago perante vós, desocupados, o glorioso Jotun, game desenvolvido pelo estúdio independente Thunder Lotus Games, lançado exclusivamente para PC (e para Linux e Mac também) no dia 29 de Setembro deste ano de 2015.

Seu nome é Thora, e você nasceu uma guerreira. Nove noites de tormenta sucederam o seu nascimento, nomeando-a em homenagem ao Deus do Trovão. Ao lado de seu pai e seu irmão, você navegava sobre os mares em grandes dracares em direção a terras distantes, trazendo fortuna e glória como lembranças de suas expedições. Um dia, porém, a morte chegou para você. Nem a madeira do seu dracar nem sua alma guerreira foram páreos para a ira das ondas de Ran, e você encontrou um fim inglório nas profundezas sombrias do mar. Entretanto, o sangue de Thor corre em suas veias, e os Deuses decidiram lhe dar a chance de redimir sua morte sem glória. Para isso, você precisará provar seu valor aos Deuses ao derrotar os Jotun, bestas gigantescas guardadas pelas Runas, que se encontram espalhadas pelos Nove Mundos. Os Deuses prestarão auxílio à sua contenda, mas cabe somente a você prova-los de que é digna de descansar nos salões de Valhalla!


Não sei quanto a vocês, galerinha desocupada, mas eu não sou muito chegado em jogos Indie. Apesar de quase sempre serem os primeiros (e até mesmo os únicos) a experimentarem novas fórmulas e dinâmicas de jogabilidade e/ou narrativa, pra mim, eles acabaram entrando em um padrão, sendo exageradamente artísticos, primando por uma trama profunda tal qual um filme experimental conceitual francês; ou exageradamente minimalistas, com visuais super-pixelados ou 3Ds não muito polidos. Não que haja algo errado com essas coisas, mas é que, pelo menos pra mim, essa acabou virando a "superfície" do "oceano" dos Indie Games. Raramente, um título consegue nadar contra a corrente e saltar dessa superfície, se destacando de uma maneira diferente da comum. Para este que aqui vos escreve, Jotun foi um desses títulos.

Não tem como começar a falar de Jotun se não pelo visual. Jotun é magnificamente lindo desde a cutscene dos primeiros minutos até as animações finais dos últimos. Eu acabei de falar mal deles, mas essa é uma qualidade que, muitas vezes, somente os Indie Games conseguem apresentar. Grande parte dos jogos "AAA" tem uma beleza mais técnica, voltada ao realismo e ao detalhismo. Poucos deles primam por uma beleza mais artística, livre de regras e sem medo de experimentar. Em alguns jogos, dá pra sentir o amor e o esforço que os desenvolvedores puseram durante a criação do game, e Jotun é um deles. À medida em que eu avançava no jogo, mais eu via que a galera da Thunder Lotus Games havia mergulhado de cabeça na temática da mitologia nórdica. Muitos detalhes interessantes, provindos dos mais diversos contos nórdicos, podem passar despercebidos para aqueles que não os conhecem — como o fato de, em certo ponto do jogo, darmos de cara com uma estatua do deus Loki com adesivos sobre a boca —; mas mesmo assim, o game faz um bom trabalho explicando alguns deles, de modo que quem não sabe bulhufas sobre mitologia nórdica fique, minimamente, interessado em conhece-la, e aqueles que a conhecem, mesmo que só um pouquinho (como este que vos escreve), se sintam ainda mais maravilhados pela atenção dedicada ao game.

Jotun também possui um estilo gráfico bastante interessante. Todos os cenários e seus respectivos componentes são criados digitalmente, sendo bastante retilíneos, relativamente estáticos e contando com uma paleta de cores bem elaborada. Em contrapartida, dos os elementos com os quais o jogador pode interagir — incluindo desde a própria protagonista, Thora, aos inimigos e alguns objetos que compõe o cenário — são desenhados à mão, com traços mais incertos, cheios de rabiscos, animados de maneira fluida e natural. Essa é uma opção interessante não só do ponto de vista estético, mas também do ponto de vista do game design do jogo. Já nos primeiros momentos, com um pouquinho de atenção, o jogador irá perceber que pode interagir com os objetos desenhados à mão, de modo que, quando encontra-los novamente, já saberá o que fazer sem que o jogo tenha que relembra-lo através de textos ou coisas do tipo.

Cuidado com essa maldita águia, senão ela pode te matar. De susto. Na vida real.
Sério. Angelo: Breno medroso do caramba


Aproveitando que estávamos falando dos gráficos em relação a jogabilidade, outro feito interessante de Jotun é fazer com que você, jogador desocupado, se sinta, ao mesmo tempo, miserável e poderoso. Como assim? Calma que eu vou tentar explicar.

O game se dá de uma perspectiva isométrica, câmera fixa de cima pra baixo, com uma leve inclinação vertical. Porém, diferente de outros jogos que utilizam do mesmo ponto de vista, a câmera de Jotun não fica exatamente fixa o tempo todo. Em momentos-chave, a câmera se distancia ou se aproxima da protagonista, a fim de mostrar a fase na qual o jogador se encontra com mais clareza ou direcionar a atenção do mesmo para algum elemento do cenário. Nessas horas, a câmera pode simplesmente se afastar um pouquinho para "trás" para mostrar algo que está logo ao lado, ou pode dar "tchau" às estribeiras e se afastar violentamente da protagonista, de modo a deixa-la ridiculamente minúscula na tela para dar ao jogador uma noção de escala. É como se o jogo dissesse "Ah, é? Você se acha o tal? A maior guerreira viking que já viveu? Pois olha só o seu tamanho em relação ao galho desta árvore, ou a extensão dessa ponte. Ainda está se sentindo a última Coca-Cola do deserto?"; porém, em vez de te fazer se sentir mal por isso, ele só te deixa ainda mais maravilhado com as belezas daquele mundo. Você se sente insignificante, miserável, apenas um pontinho ruivo nesse enorme e belo mundo nórdico.

Mas não é só o mundo que faz com que você se sinta miserável. Outro momento em que você irá se deparar com sua pequinês é quando estiver diante dos Jotun, os chefões do jogo. Inicialmente, tudo está ok quando você adentra a sala onde irá enfrenta-los, mas não demora muito até a câmera dar um zoom out pra mostrar o que te aguarda nos próximos segundos. Bem na hora que você começa a pensar "Deus do céu, eu tenho que enfrentar isso?!", o chão começa a tremer, o bichão desperta e começa a vir pra cima de você. Nessa hora, você se sente o mais miserável possível, mas essa sensação logo passa quando você começa a barra de energia do gigante diminuindo — mesmo que aos pouquinhos — a cada golpe do seu machado; ou quando você desvia de um golpe gigantesco e arrasador. Nessas horas, você se sente poderoso. Um pequeno pontinho ruivo, trazendo à baixo titãs aparentemente invencíveis, um a um.

Sim, você enfrentará isso em Jotun. E sim, só piora.


Enquanto estive jogando Jotun, não consegui deixar de compara-lo com outros jogos. Pra mim, Jotun é uma mistura entre Shadow of The Colossus — um dos grandes clássicos da Team ICO para PS2 — e Dark Souls — a série de jogos semi-impossíveis da From Software, da geração passada. Se você já viu ou jogou Shadow of The Colossus, verá que a comparação é bem óbvia, mas se não, eu me refiro a elementos como Pequeno VS Grande, mundo inabitado e algumas outras pequenas semelhanças. Já em relação a Dark Souls, a comparação se dá mais pelo estilo de jogo de ambos os games. Não se engane, tanto em Jotun quanto em Dark Souls — muito mais no segundo que no primeiro —, você morrerá, e morrerá BASTANTE. É bem frustrante no começo, pois os inimigos parecem impossíveis de se derrotar, mas à medida que você vai tentando (e morrendo), você vai descobrindo falhas, padrões, pontos cegos. Isso incita o jogador a querer tentar de novo e de novo, pois por mais que não pareça, aquela tarefa é totalmente possível de se cumprir, faltando apenas um pouquinho mais de habilidade e precisão por parte dele. E quando finalmente consegue, a sensação de recompensa é quase inigualável, e você se vê pronto para os próximos desafios.

Uma bom reforço para esse argumento é que, antes mesmo de chegar neles, o próprio jogo já te ensina a derrotar os chefes. Cada fase apresenta pelo menos um elemento que será usado posteriormente, na luta contra seu respectivo Jotun, seja uma mecânica empregada por ele — como um ataque ou objeto do cenário que pode causar dano — ou uma "ferramenta" para derrota-lo com menos dificuldade — como habilidades que aumentam seu ataque, te deixam mais rápido ou que curam um pedacinho da sua energia.

Além de ensinar a jogar, o level design de Jotun também incentiva a exploração, mesmo que de uma maneira pouco inspiradora. Cada fase possui uma Maçã de Ithunn — que aumenta a sua barra de energia — e um Templo Divino — que concede as habilidades das quais eu falei agora há pouco. O "pulo do gato" é que nenhum desses upgrades é necessário para concluir a fase ou derrotar os chefes. Contanto que você tenha encontrado a Runa no final da fase, você está livre para avançar. O que dificulta essa exploração, porém, é o mapa do jogo. É realmente difícil e irritante se guiar pelo mapa de Jotun, pois ele só mostra os pontos de interesse (como Templos e Runas), sem indicar claramente a localização do jogador, além de fazer com que o mesmo pause o jogo constantemente para (tentar) conferir onde está. Tal qual um mapa de papel, em pleno século 21, onde mapas falam com você.

Beleza, muito bonito, mas onde é que eu tô?!


Do ponto de vista sonoro, Jotun definitivamente não desaponta os deuses. Acima de tudo, não tem como deixar de citar que a dublagem do jogo é feita inteiramente em nórdico antigo, a língua original dos vikings, o que é um toque interessantíssimo e que contribui para a criação da atmosfera do jogo. Se você não entende nem o nórdico antigo nem o inglês das legendas, não precisa se preocupar, pois o jogo também possui legendas em português brasileiro, pra que nenhum de nós fique por fora da história de Thora.

No que diz respeito a trilha sonora, Jotun também faz um excelente trabalho. As musicas são muito bem compostas, e estão em perfeita combinação com a escala do jogo, principalmente durante as lutas contra os chefes. Tanto nas batalhas quanto nas fases — muito mais nestas segundass que na primeira —, a trilha sonora de Jotun procura ser muito mais complementar, em perfeita combinação com a ambientação e com a situação em que o jogador se encontra — principalmente durante os chefes. Por causa disso, não pra reparar muito nela na hora da ação, mas se encontrar um momento de paz durante o jogo (ou depois dele), você verá que as musicas são tensas e cativantes. Nada mais justo para uma batalha contra um ser gigante sobrenatural.

É bem difícil escolher uma favorita pra compartilhar com vocês, desocupados. Eu gosto de grande parte delas, mas acho que vou ficar com o tema da batalha contra Hagalaz, o chefe que fez com que este que vos escreve, sempre de boa e caladinho, gritasse de raiva e tremesse de nervosismo. Não que os outros chefes não tenham causado isso em mim também, mas esse maldito Hagalaz foi além dos limites. Escutem aí:


Ufa! Acabei me estendendo bastante hoje, logo quando achava que estava conseguindo diminuir o tamanho dos meus posts... Mas acho que conseguir por pra fora tudinho que tinha pra falar sobre Jotun. Hora daquela velha e boa nota de sempre, não é?

E aí vai ela -> 9.0 / 10

Jotun mistura a escala intimidadora de Shadow of The Colossus com o desfio exigente e altamente recompensante de Dark Souls, envolto sobre uma atmosfera baseada na mitologia nórdica, com gráficos que mesclam muito bem a arte digital e a tradicional e uma trilha sonora digna de jogos "AAA". A jogabilidade é simples, e o game design do jogo faz com que o jogador se torne melhor a cada nova fase. Porém, a progressão é atrapalhada pelos mapas, que são confusos e dificultam a exploração, em vez de ajuda-la.

"Entonce", se você procura um desafio de arrancar os cabelos, porém lindo de morrer, não tenha dúvida: Jotun é a sua melhor pedida!

Bem, por hoje é só, galerinha.

Um abraço e até mais!

Por Breno Barbosa

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